Eu gosto de planejar. Quem me acompanha há mais tempo sabe disso. Mesmo vivendo há mais de 10 anos como nômade digital, eu continuo gostando de saber mais ou menos para onde estou indo, onde vou ficar, como será a rotina. Talvez seja justamente isso que me permite sustentar esse estilo de vida por tanto tempo.
No dia 1º de março de 2026, eu tinha um desses planos que me animavam de verdade. Ia embarcar na África do Sul rumo ao Oriente Médio, começando pelo Qatar, passando por Omã e terminando nos Emirados Árabes. Dubai seria a base por mais de dois meses. E não qualquer lugar em Dubai. Eu tinha conseguido um Airbnb na Dubai Marina, um dos meus lugares favoritos na cidade. Dubai, para mim, já deixou de ser só destino. Virou quase uma segunda casa. Eu já sei onde tomar café, onde cortar o cabelo, qual mercado ir, quais restaurantes eu gosto e até tenho amigos por lá. Era o tipo de viagem que não era só viagem, era quase um retorno.
No dia 27 de fevereiro, fui dormir tranquilo. Check-in feito para o voo de Johanesburgo para Doha. No dia seguinte, era só arrumar a mala, me despedir de Cape Town, e seguir para Johanesburgo para pegar o voo. Mas a vida de nômade digital tem um jeito curioso de lembrar que você não controla muita coisa.
No dia 28, acordei com a notícia de que os Estados Unidos tinham atacado o Irã. Liguei a TV ainda com café na mão e, conforme as horas passavam, o cenário só piorava. Até que veio a informação de que mísseis estavam sendo direcionados para Doha. Foi ali que tudo mudou. Com o check-in já feito, eu sentei e comecei a fazer o que todo nômade aprende cedo ou tarde: recalcular rota.
Abri mil abas, comecei a olhar voos alternativos, possibilidades de hospedagem, cenários. Em poucas horas, eu precisava replanejar os próximos dias de vida. Foi um dia estranho. Nem lembro direito se almocei. A cabeça estava completamente focada em entender o que fazer. Cancelei o voo para Doha. Perdi um trecho separado que tinha comprado para Joanesburgo. Dinheiro indo embora e decisões sendo tomadas ao mesmo tempo.
Como ainda podia ficar mais alguns dias na África do Sul, reservei outro Airbnb em Cape Town por mais uma semana. Naquele momento, fui otimista. Achei que a situação ia se resolver rápido e que eu poderia simplesmente ajustar as datas e seguir com o plano original.
Não se resolveu. Nos dias seguintes, o conflito só escalou. E eu me vi diante de uma decisão que todo nômade, em algum momento, precisa tomar.
Continuar esperando, ansioso, sem prazo, ou aceitar que aquele plano já não fazia mais sentido. Esperei mais três dias. A cada notícia, ficava mais claro que insistir seria só prolongar um desgaste. Foi então que tomei a decisão que eu não queria tomar, cancelar tudo. Não foi simples. Foram dois ou três dias falando com companhias aéreas e plataformas de hospedagem. Passagens sem cancelamento, reservas rígidas. Na teoria, eu perderia mais de 40 mil reais. Na prática, aconteceu algo que nem sempre acontece, mas que vale mencionar. British Airways, Agoda, Booking.com, Airbnb, Qatar Airways e Oman Air entenderam a situação. Aos poucos, foram autorizando cancelamentos e reembolsos.
Quando tudo finalmente estava resolvido, veio o próximo passo, replanejar a vida de novo. Decidi ficar mais alguns dias em Cape Town e depois voltar para as Ilhas Maurício. Eu tinha passado a virada do ano na ilha e gostado muito. Boa infraestrutura, aeroporto conectado, um ritmo que me agradava.
Hoje, escrevo esse texto de Maurício, exatamente no período em que eu estaria no Oriente Médio. A mudança foi grande, mas trouxe coisas que eu não tinha previsto. Mais tranquilidade, menos gastos, dias de praia, tempo para cuidar da saúde e da alimentação, algo que eu vinha adiando há meses.
E é aqui que entra o ponto mais importante. A vida de nômade digital é feita de decisões constantes, mas algumas delas não são escolhas, são respostas ao que acontece ao seu redor. Pode ser um conflito, um problema de saúde, um visto negado ou uma questão familiar. Não importa o motivo. Em algum momento, você vai precisar mudar tudo de uma hora para outra.
Nessas horas, duas coisas fazem toda a diferença. A primeira é o psicológico. Você precisa aceitar rápido, se adaptar e seguir. Ficar preso ao plano original só aumenta o desgaste. A segunda, e talvez a mais importante, é ter uma reserva financeira. Se eu não tivesse margem para absorver perdas, pagar novas hospedagens, reorganizar voos e ganhar tempo para decidir com calma, essa história poderia ter sido bem mais complicada.
Por isso eu sempre falo, se você quer ser nômade digital, construa antes uma reserva de pelo menos seis meses do seu custo de vida. Não é exagero. É o que te dá liberdade para lidar com o inesperado sem entrar em desespero.
No fim das contas, eu também levei um outro aprendizado comigo. Ser flexível não é só uma habilidade, é uma necessidade. Quanto mais você tenta controlar tudo, mais sofre quando algo foge do plano. Se adaptar, às vezes, abre portas que você nem sabia que existiam.
E se você quiser se aprofundar mais nesse estilo de vida, com histórias reais e aprendizados práticos, eu conto muito mais no meu livro O Clube dos Nômades Digitais.

